Quando a chuva amaina, os trovões parecem tremendos e terríveis! Ontem a criatura lamentava a dor que fazia latejar o seu âmago: a vontade de abandonar o processo de fuga da infância. Hoje nela restam pedaços do caminho e diluem-se os companheiros de estrada. Oh como se dissipam, como se confundem agora com o pavimento…
Nos primeiros anos da minha existência, eu almejava atingir a idade das possibilidades, a idade do voo. Nos meus olhos vivia a força constante de derrubar todos os obstáculos. Naquela idade, a solidão era, duramente, inexistente. As relações – como hoje – esgotavam-me, consumiam a minha faculdade de ser racional e equilibrada. O outro era o monstro que me sufocava e me transformava num ser excêntrico delicioso.
Mas hoje, que o voo está iminente, o monstro tende a partir, a deixar-me sofrer sozinha… É natural prosseguir, escapar do habitual, é doloroso! Ninguém nos embala e conta que, enquanto adultos, somos criaturas, completamente, solitárias. Ninguém nos confessa que chora sozinha e sorri sem companhia. Ninguém nos avisa que a grandeza – que o beijo da imortalidade – exige um salto de fé!
É agora que nos cabe decidir se vamos ou ficamos: se abandonamos o calor materno, conhecido e confortável ou se tentámos o extraordinário. E porque não o extravagante?
A falha é compensada pelas vezes que nos ostentam como únicos e capazes…
Ensinam-nos a acreditar: nos outros, em Deus e na verdade. E em nós? É tão, completamente, ridículo como nos agarram e depois nos deixam cair no mundo… É esplêndido e magoa, mas fascina-me. Sinto-me confusa. Esta idade parece-me demasiado brilhante e comum, distrai-me a sua essência e, no entanto, os meus instintos estão alerta, à espera da oportunidade de saltar o precipício.
E o início? O monstro? A chuva?
A vida é um ciclo rápido de mais! Soberanamente, determinado a não ser aproveitado pelos seres que anseiam pela falta de esquecimento. Deixa-me ficar aqui para sempre, mesmo que os capítulos iniciais se dissolvam e que o monstro soçobre. Fitá-lo-ei, então, pela primeira vez, como igual…
09 outubro 2012
Os primeiros capítulos esquecem-se!?
01 setembro 2012
Speaking of Love...
É difícil ignorar a acelaração imediata, que nos toma de assalto, sufoca e massacra por umas ampulhetas de tempo.
Quando já só nos resta um orgão seco, incapaz de se agarrar a qualquer ingénua conexão, a nova força massiva é terrivelmente assustadora!
É, assim, desta forma, estranhamente, deliciosa que se prende a ave livre e solitária. Se antes abandonar o vento era similar a uma tortura - já que ainda era cedo - agora, nada resta que a ate à liberdade. E segue: sensível pela primeira vez.
18 agosto 2012
As saudades que não sabíamos que tínhamos…
Palmeava o terreno dos sonhos a toda a velocidade e a largos passos almejava refugiar-me na consciência, na realidade. Era tão belo nascer do sol naquele lugar distante e dormente, mas ansiava por acordar e encarar a dor da separação.
Sim, sabia que sentia a falta das ruas de Paris, do seu aroma a alma, do seu visual tímido e diluído na História. Sonhara já com a cidade e já sabia que a amava, mas nunca como quando a vi à distância!
Irracionalmente, derramei lágrimas amargas, sentindo-lhes o sabor a fel. Tentava perder a calma para alcançar a dormência, mas a dor inconsciente era enorme. Esplêndida sensação! Derramava-se, naquela altura, o que eu era eu e surgia o que sempre queria ser.
Não há muito tempo, pensei que pelo caminho tinha abandonado a minha força e que me agarrava aos almejos de forma oca. Sentia-me incapaz de os amar. Antes, encarava-os como inevitáveis objetivos. Mas a saudade fez-me encontrar o pedaço da minha alma desbotada na morna atitude e percebi que não sabia o quão sentia a falta daquele período ínfimo que me apresentou o meu ninho.
É que a dor é o combustível da força, a dor própria e criada pela irracionalidade. Desprezem a vida e os arranhões da estrada tortuosa, o motor para o sonho está dentro de cada criatura, está na sua capacidade de sofrer por algo tolo e apaixonado.
Ah ver Paris foi o melhor impulso. Saber que não a podia possuir tão cedo, que teria de crescer e lutar por ela. É irracional, mas o lar chama-me e sinto-me, extraordinariamente, invulgar por sentir isto! É estranho gostar de um lugar conhecido por uma fracção de segundo…
As saudades que guardava camufladas foram saciadas pela renovada vontade. O Homem é uma criatura triste, por natureza. Fazê-la feliz é simples: levem-a a casa!
06 agosto 2012
Quando os anjos se deitam…
É curioso observar os diversos estados de enfermidade de um crepúsculo. Com efeito, quando nada há mais que me toque, somente observo este horizonte meio nublado, meio incapaz de combater o cansaço.
Quando a cruel luta intrínseca se acalma e os anjos descansam, eu acordo, finalmente! Durante anos, todas as noites estivais eram os meus dias intermináveis, inconsumíveis e, terrivelmente, longos. Que horror tremendo representava a escuridão e o seu calor extremo, que teimava em acentuar a loucura noturna. Esses anos, porém, abandonaram o meu espírito e, talvez por procurar distração, talvez por esquecer o ócio, o dia derramou-se sobre a minha anomalia preferida: a insónia!
Agora, passada a fase mais negra, deleito-me com os restos mortais da vida: o seu esqueleto que perdura e me encaminha para a perdição. É estranho como crescer se encarrega do esquecimento… quando estamos tão prestes a abandonar a sanidade, doidos com as milhares decisões que se propõem, a vida esquece-nos!
Ontem, a noite parecia um leito divino e eu não duvidei que, se existem, os anjos repoisavam sobre aquele manto. Todavia, o mais notável momento não se tratou do céu noturno, morno e insonso. Antes, apreciei animicamente o por do sol, que me impressionou! Tais cores e tais expressões… Oh como bailava o querer naquele final! Reflexivo e romântico, o momento crepuscular cessou um dia sem interesse com um final triunfante!
20 julho 2012
Protegem-se os imigrantes e discriminam-se os contribuintes!
Não é de hoje que os continentais fitam os açorianos – em especial, os micaelenses e o seu sotaque – com desprezo e certo escárnio. Mas quando é demais, chega!
Já ouvimos todo o tipo de anedotas e suportámos a humilhação das legendas nos telejornais, porém nunca antes tinham usado o nosso sotaque num anúncio publicitário cujo título é: «Não é preciso entender o senhor Miguel (…)».
Estava eu, calmamente, a assistir programas sem interesse numa tarde de descanso, quando certa publicidade me despertou espantou, indignação e vontade de mandar o comando da TV ao próprio monstrinho. A história por detrás do tal produto é simples: um certo micaelense, dono de um restaurante, explica como ser o melhor na confecção de bifes, exagerando pelo caminho todos os nosso defeitos do sotaque. Na primeira vez que o vi, não percebi metade do que o senhor disse, refletindo-se, de imediato, a inadequação do vocabulário usado. Não, nós não dizemos televisão dessa forma estranha, nem usamos «poderiz» em todas as frases… Contudo, se utilizassem, com o mesmo exagero, estes vocábulos e esquecem o dito título, eu daria-me por descontente, talvez imparcial, com o tempo. Todavia, usam-o e isto é ultrajante!
Então, andaram-se anos a defender os negros e os outros imigrantes, aclamando-se os seus direitos. Em todo o lado se apregoa a igualdade e, mesmo assim, massacram-se os que falam de forma diferente, a sua própria língua. Se se ouve um brasileiro, é sensual, se se ouve um açoriano, goza-se. Não gozam, porém, dos nossos impostos, certo? E das nossas compras… O nosso dinheiro – e voto – é semelhante ao dos finos continentais… ainda assim somos usados como estratégia de venda.
Talvez dê alguns frutos esse vosso trabalho e, por melhor que seja a marca, a mim surge-me a vontade de qualquer punição. Pode ser extremo ou irreal, mas a revolta nunca foi, propriamente, racional. Com tudo isto, a Optimus utilizou o sotaque de uma outra zona de Portugal, mas respeitou-a. Já a São Miguel, restam as legendas,aparentemente, precisas, já que o senhor Miguel é difícil de compreender!
O famoso e Incompreensível anúncio do senhor Miguel!
03 fevereiro 2012
Fragilidade…
Linha ténue, débil e mordaz
que equilibra o são e o insano,
irritando o monstro que não se satisfaz
com as frias lágrimas do humano.
Ah felicidade! Que quimera tola
a de ser completo e destinado
ao triunfo! A doirada argola
que prende a miséria ao amado
sucesso é moribunda e abatida
pelo momento de queda
que realça a dor contida
na tortuosa e intrínseca alameda.
Estava no céu e amava a vida,
mas o anjo repentino atirou-me para escuridão azeda!
18 janeiro 2012
I**
Saber quem somos é, apenas, meio caminho para o tão desejado sucesso. É, porém, uma estrada tortuosa e difícil, em que o corpo cede ao cansaço sucessivas vezes. Árduo talvez de mais, para uma primeira porção! Quem o consegue evitar? Ontem, sabia exatamente quem era, sempre soube e sempre soube para onde ia, tinha o plano aperfeiçoada na minha mente. Tudo: os sucessos, as lágrimas, os trabalhos forçados e os arranhões que as silvas diabólicas da tentação me iriam infligir. Porém, quando atingi a real idade de saber todos estes detalhes, encontrei uma enorme dúvida: o que me fará diferente? A resposta ainda não se dignou a constar dos meus conhecimentos, mas, entretanto, decidi focar-me na capacidade aparente escrever, já que, no que toca às outras caraterísticas, a diferença é criada apenas pelo negrume em comparação com a nívea superfície mundial! Bem, é diferente, pelo menos, mas ninguém quer marcar o mundo pelo meio negativo, certo?
Chocolate, Chuva e…Gripe!
A maioria da população portuguesa tem grande predileção pelo verão. E quem os podem elucidar? Não sei como se escolhe o verão, quando se pode escolher um delicioso inverno de férias… Pelo menos, um fantástico fim de semana fugaz em que apenas se ouve a chuva,se aproveita a simplicidade e se come quilos de chocolate. É certo quer repetir este prazer diariamente lhe tira alguma magnitude, mas, de quando em vez, sabe bem deprimir num sofá… O melhor remédio posterior (para sair da amenidade deprimente) é uma alimentação leve, limpa e saudável e um bom tratamento corporal e facial para expelir as últimas consequências. Bem, inverno não temos, mas as constipações abundam e, por isso, mais vale não sair da cama, mesmo em dias de sol, e limitar-se a comer refeições bem magras… A receita do prazer supremo é, então, arruinada nestas alturas pela vontade de repousar e de esquecer o mundo à volta. ODEIO gripes e isso faz-me amar menos o adorado inverno!
04 janeiro 2012
Escuridão…
O fel corroí-me as entranhas,
destruindo a pouca alvura
mantida pela alma que abocanhas
e fazes diluir nessa negra brancura
que te mancha as garras!
Ser medíocre e fingido
que expulsas e amarras
o ser por ti temido!
Foge! Furta a tua presença
do meu olhar merecedor
de mais que uma desbotada crença.
Oh ser odioso! Que o ardor
da falsidade em ti vença
e te devore vivo e sem temor…
IP
02 janeiro 2012
O coração da Ave liberta é mudo!
Capítulo IV – Metamorfose real!
A felicidade é uma realidade escassa, inacessível. Abandonar o abrigo infantil, calar o coração é, sempre, abdicar da ilusão de vir a ver perfeito e feliz. Na infância é fácil acreditar que teremos a capacidade de marcar o mundo, de o mudar, irremediavelmente. É enigmático como tudo é tão acessível! Somos, então, as aves mais corajosas, as primeiras com a vontade assertiva de construir e alterar o espaço! Abandonamos, porém, a gaiola linda e abaulada. Trocamos a luz coada pela janela aberta e deliciosa. Somos gananciosos e a criança selvagem com o coração que se exprime torna-se na ave sinistra e calada que sobrevive na caverna e no prado idílico, mas efémero. Não sei onde estou agora! Não sou a criança frenética, nunca o fui, não sou a ave monstruosa, apesar de ter semelhanças. Sou, penso, ainda o estado intermédio da metamorfose brutal da vida. O monstro em mim alimenta, agora, as vontades que, outrora, eram sustentadas pelo sorriso ingénuo. As minhas asas começam a ter mais força, mais vigor, mas não me sinto, ainda, capaz de abandonar a caverna onde me abriguei naquela noite de trovoada. Oh, a humanidade está a esgotar-se! O Homem é a criatura, por vezes, menos humana que existe. É nesta fase da mudança que a generosidade é separada da criatura. De um lado está o Homem carinhoso que tenta a salvação dos pequenos. De outro está a escuridão monstruosa que é sufocada pelos modos rígidos da sociedade. O ser que, brevemente, irá brotar da minha antiga alma é estranho! Uma criatura reprimida com vontades frustráveis. Sim, um ser maduro, pela primeira vez capaz, mas sem capacidade de almejar mais do que o medíocre nada! Contudo, alguns Homens peculiares nunca alcançam este estado. É, claramente, esta a minha esperança: que eu seja um desses tais singulares seres que criam a partir do coração que, apesar de não ser infantil, é afogueado e barrulhento. Parte dessas criaturas monstruosas que se odeiam e amam, que sobem para cair e não para alcançar o topo. Talvez, até, porção de alguma outra criatura que se apaixone pela pacificidade passional e irrequieta da minha alma. A mudança que a natureza opera em todas as pequenas aves falha diversas vezes. Surgem, então, os originais, os erros! O mundo é alterado pela metamorfose, também. O lugar simpático e fascinante torna-se negro e corrompido. Sim, o mundo está tão intensamente negro, porque hoje os monstros ganharam. Os generosos quiseram-os na liderança. Os ingénuos apoiaram. E os estranhos, à margem, sucumbiram e deixaram que a metamorfose agisse como uma noite sem lua. Contudo, existem suficientes vontades para mudar o prado, antes idílico. Não existem é vozes poderosas e capazes de arremessar estes selvagens corrompidos e frígidos. É urgente! Esqueçamos a sociedade, o estado da sociedade! A manhã já aí vem… esperem… a felicidade aguarda-nos, temos de caminhar na sua direção. Porque insistíeis em fugir? Porque a inspiração surge do carpir, do sofrer, do monstro e da escuridão. E a ave calada torna-se, também, surda, cada vez mais pessoal e só!
Inspirado na Vida
IP
21 dezembro 2011
Raiva & Traição
És falsa, plástica, morna, incapaz de ultrapassar o meio.
Oh grande perda! Ah, perda de irritação!
Salvação pela doce e repleta de fel traição…
Lágrimas encarnadas transbordam o meu seio.
A garganta arranha de indignação.
Quê? Chegadas ao túmulo e escapas?
Abandonas o lar, sentindo-te a invocação
do mais fino ser a quem, apenas, se vêm as capas.
Ah, como o fel queima a língua já dormente!
Deitaste-me o veneno na boca e sorriste,
escarneceste qual retorcida mente.
Oh ajudante do cavaleiro infernal,
se tu própria és a traição e me fugiste,
quem me resta neste percurso letal?
A ti só te restam peças do jogo carnal…