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09 outubro 2012

Os primeiros capítulos esquecem-se!?

Quando a chuva amaina, os trovões parecem tremendos e terríveis! Ontem a criatura lamentava a dor que fazia latejar o seu âmago: a vontade de abandonar o processo de fuga da infância. Hoje nela restam pedaços do caminho e diluem-se os companheiros de estrada. Oh como se dissipam, como se confundem agora com o pavimento…
Nos primeiros anos da minha existência, eu almejava atingir a idade das possibilidades, a idade do voo. Nos meus olhos vivia a força constante de derrubar todos os obstáculos. Naquela idade, a solidão era, duramente, inexistente. As relações – como hoje – esgotavam-me, consumiam a minha faculdade de ser racional e equilibrada. O outro era o monstro que me sufocava e me transformava num ser excêntrico delicioso.
Mas hoje, que o voo está iminente, o monstro tende a partir, a deixar-me sofrer sozinha… É natural prosseguir, escapar do habitual, é doloroso! Ninguém nos embala e conta que, enquanto adultos, somos criaturas, completamente, solitárias. Ninguém nos confessa que chora sozinha e sorri sem companhia. Ninguém nos avisa que a grandeza – que o beijo da imortalidade – exige um salto de fé!
É agora que nos cabe decidir se vamos ou ficamos: se abandonamos o calor materno, conhecido e confortável ou se tentámos o extraordinário. E porque não o extravagante?
A falha é compensada pelas vezes que nos ostentam como únicos e capazes…
Ensinam-nos a acreditar: nos outros, em Deus e na verdade. E em nós? É tão, completamente, ridículo como nos agarram e depois nos deixam cair no mundo… É esplêndido e magoa, mas fascina-me. Sinto-me confusa. Esta idade parece-me demasiado brilhante e comum, distrai-me a sua essência e, no entanto, os meus instintos estão alerta, à espera da oportunidade de saltar o precipício.
E o início? O monstro? A chuva?
A vida é um ciclo rápido de mais! Soberanamente, determinado a não ser aproveitado pelos seres que anseiam pela falta de esquecimento. Deixa-me ficar aqui para sempre, mesmo que os capítulos iniciais se dissolvam e que o monstro soçobre. Fitá-lo-ei, então, pela primeira vez, como igual…

02 setembro 2012

Why Can’t I Stop Thinking About You?!

É, ridiculamente, simples: cada átomo do meu ser associa toda e qualquer memória a outra existência. Depois de quatro anos de dormência plena, o despertar ruge, furiosamente!
Pela estrada se desbotam pedaços da minha criatura, pinta-se o percurso com o ser próprio, torna-se seu! Já não é uma batalha, é um conflito interior, uma vontade estranha. O espaço já sou eu, a minha essência tresanda! Num momento estou no topo, e neste momento estou no pó que me moldou… As minhas formas desfiguram-se. Assemelho-e a nada, e nada é muito. A minha própria respiração é condicional… a minha força interior é fraca! De repente, eu já não existo! Agora, e por uns dias de combate, sou uma marioneta desta emoção repentina e doida, que se mostra incontrolável.
Pelo fim da semana, serei tão morna como ontem, mas hoje sou menos dormente, pelo menos! A tempestade é tão efémera, que não me preocupa. Derrama, todavia, na minha alma a estúpida vontade de a alimentar. Esquece, tempestade! Eu venço sempre. Sou a senhora de todas as tuas possibilidades. E, no entanto, desejo, profundamente, não o ser!
Com o olhar que me dedicas acendi o maior incêndio dos últimos tempos… Eu sei como extingui-lo. Não quero, mas irá desaparecer, rapidamente: não há muito para consumir, já só restam tentativas ocas. Entretanto, deturpas-me as faculdades, gritas-me e massacras a minha tranquilidade doentia.
Prometi que não ia cair e caí. Sei como esquecer a queda, mas a dor é tão deliciosa. Sinto-me um espectro de um vampiro – se isso fosse possível – que devora um ser, malha a nívea pele, os alvos lábios e, mesmo através de toda esta confusão, sorri satisfeito e faminto: sempre mais, e mais é pouco!
Uma eternidade seria insuficiente para remover essa minha capacidade destruidora. Tu pareces inibi-la, mas não aniquilá-la. Em poucos dias, tu morres, eu volto ao céu e deixo o momentâneo e feliz inferno das criaturas felizes…
Pelo caminho, vou tornar mais rija a minha proteção. No teu próximo olhar, já não estarei exposta aos teus encantos, aos teus brilhantes sorrisos, à tua constante procura… Vou sentir-me indiferente e encarar o nosso encontro como um mero acaso, que agora sinto como extraordinário!

08 março 2012

O coração da Ave liberta é mudo!

Capítulo VI – A dormência.

Os olhos tão translúcidos escondem os verdadeiros pecados da criatura que habita no prado idílico. O olhar puro é a mais antiga artimanha: faz sucumbir os inimigos e ata-os à crueldade trazida na doçura. O ar estava húmido e incapaz, emaranhando as penas alvas da pequena avezinha poisada na pálida flor vermelha. Uma papoila que derramava lividez… O céu estava esplendidamente alvo, quase branco. O mar parecia prata desbotada e consumida pela terra ambiciosa coberta de um manto resplandecente de natureza. Zéfiro passeava junto das folhinhas e derrubava o equilíbrio perfeito. O amanhecer parecia o crepúsculo fantástico de uma dia morno e odioso. Um daqueles finais perfeitos para uma história que nenhuma alma dota de atenção.
O primeiro raio solar fez a ave abandonar o repouso. O mundo está repleto de pequenos detalhes deliciosos, tão romanticamente realistas, que nos escapam na urgência de construir e conseguir. Contudo, se a visão objetiva for trocada pela vontade imensa e individual de olhar o mundo, a realidade torna-se pequena e diminuta. O olhar subjetivo reflete a alma do observador. E, após a falha ao mudar o mundo e o desgosto com o herói romântico, a dimensão insuportável da criatura reduz, drasticamente, o espaço.
O mesmo ser que queria erguer um novo mundo está, agora, dormente. A sua condição de observador deleita-o, sendo o veneno mais letal e perigoso e consumindo a vontade de oscular qualquer porção da realidade com a inovação.
E a ave liberta que se mostra satisfeita revela-se pouco peculiar na procura de um propósito. A dormência é, contudo, provisória e aguarda o incêndio da paixão madura pelo mundo.

Inspirado na vida,
IP

07 fevereiro 2012

Porção alva e frígida…

Lenta e deliciosamente, o ar borbulha nos círculos viciosos construídos na pressa de enregelar as peles claras e medonhas que ostentam as criatura negramente alvas, qual monstro níveo corrompido. É um soberbo querer atingir! A delicadeza da dança dos pálidos flocos é contagiante! O pedaço de gelo em estado peculiar permanece levado, simples e feliz. A ele muitos se juntam, tal coreografia natural e singela. É um ser mais que ser, um existir magnificamente. É a natureza no seu estado humano, exibindo desdenhosamente a ideia cartesiana de que uma porção mais pura tem, certamente, mais possibilidades de ser real. Esta é a derradeira ostentação do meio que, assim, nos coloca na fogueira e nos faz desejar o toque cru, esplêndido e soberbo da estrela frígida que se passeia em nosso redor… O auge da beleza está, evidentemente, nesse estado incrível invernoso que faz sucumbir os pequenos pedaços de precipitação fria aos nus avanços do fel da amenidade inexistente. O Homem que ri do topo do mundo é um idiota, pois o singelo é o mais natural, o mais magnífico, já que, perante ele, a estrada ainda se mostra comprida, repleta de erros a cometer, de fantásticas oportunidades e vontades a cumprir. O floco niveamente congelado é, exatamente, a representação real da vida!

04 fevereiro 2012

O coração da Ave liberta é mudo!

Capítulo V – Como te amava…

Ao início, a luz que irradiava o meu olhar era plena, transparente e contagiante. O movimento dos meus dedos pela textura macia e transcendente dos fios dos meus cabelos era repleta do aroma divino da simplicidade e infantilidade. O sol não me era nada, além de tudo, do meu engenho perfeito! Ao princípio, eu era só e completa, com meias vontades de crescer e construir, derrubando a tirania. Era eu e a criatura fascinante que vivia dentro de mim.
Quando abandonei o meu lado luminoso, encontrei-te sentado sobre a rocha mais magnifica e esculpida. Parecias Hércules, aos meus olhos… As nuvens que se formavam no horizonte dotavam-te de um mistério irresistível. A criatura intrínseca queria-te muito, fazias dela um ser mais elevado, mais alvo e, simultaneamente, mais mundano. A vontade de ser eterna acalmava-se e recostava-se na confortável e enérgica paixão.
Todos as porções do meu ser eram devotas aos teus olhos primaveris, que me faziam amar o inverno pelo seu intenso contraste com a tua beleza. A ave que se havia liberto para uma vida de aventuras, prendeu-se no simples jeito desalinhado dos teus fios dourados.
O mundo, porém, esse monstro cruel e insaciável, quis o meu coração e rasgou-o. Todo o ar que nos unia ardeu, enquanto a besta me retirava o sentimento. Nesse dia, a ave liberta e presa transformou-se no animal solto, frio e incapaz, quase sem faculdades para sorrir e enfrentar o mundo. A criaturinha cheia troçou de mim, mas eu ignorei-a. Afinal, o que nos distingue não é o talento, é a forma como enfrentamos essas provações ridículas que nos fazem soluçar compulsoriamente.
No início tudo era brilhante e atrativo, mas a tua força gravitacional foi letal para mim e, se um dia me pareceste um herói inalcançável, hoje tomas as proporções do mesmo monstro mundano que terminou com a minha capacidade de olhar, pois o ser em ti que me venerava quebrou-se no exato momento em que poisaste os teus finos e descalços pés na superfície humana do vale das aves libertas. Foste o «Anjo caído» pecador a quem eu, simplesmente, cedi pela idílica paisagem que formavas.
A criatura, todavia, que se fez acompanhante do anjo perdido tomou como lição a dor e vedou o engenho perfeito aos olhos gélidos e glaciares que procura e se assemelham à sempre ansiada perfeição.

IP

03 fevereiro 2012

Fragilidade…

Linha ténue, débil e mordaz
que equilibra o são e o insano,
irritando o monstro que não se satisfaz
com as frias lágrimas do humano.

Ah felicidade! Que quimera tola
a de ser completo e destinado
ao triunfo! A doirada argola
que prende a miséria ao amado

sucesso é moribunda e abatida
pelo momento de queda
que realça a dor contida

na tortuosa e intrínseca alameda.
Estava no céu e amava a vida,
mas o anjo repentino atirou-me para escuridão azeda!

13 janeiro 2012

O carpidor e o real

A claridade lunar ofusca
sempre a doce alvura do olhar
petrificado de um amante que busca
escapar ao magistral terminar!

O rio que brilha e serpenteia,
cortando a terra que sofreu,
observa o quadro e nomeia
o que chora o eterno Romeu.

Mas está enganado!
O que carpe, finge.
O seco é o sacrificado…

O desbotado de negro tinge
o níveo coração agora abandonado
daquele que a sofrer se cinge!

IP

Os quentes dias frios

Este Inverno tem sido impressionante. A chuva, que abundava aqui nos Açores, parece escassear e comtemplar apenas alguns minutos de raros dias. As temperaturas arrepiam, mas impedem o uso dos tão adorados gorros que fariam, então, transpirar incessantemente! Inacreditável! Serão, pois, os efeitos do aquecimento global? Decerto há uma visível mudança e com tanta amenidade já tenho saudades de me agarrar às lãs e dormir com algo mais mais «adequado» que uma T-shirt de meia manga… Bem, espero que fevereiro se mantenha assim tão bom… afinal ninguém gosta de passar o dia de aniversário molhado e com o cabelo num estado deplorável! (LOL)

 

04 janeiro 2012

Lado a Lado…

«Quando eu sonhava»
de Almeida Garrett

Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar,
Agora que estou desperto,
Agora a vejo fixar
Para quê? – Quando era vaga,
Uma ideia, um pensamento.
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento,
Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava – mas vivia;
Prazer não sabia o que era,
Mas dor, não na conhecia…

«Deliciosa quimera»
de Isabel Patrício

Quando eu cria, era assim
que nos meus sonhos o via;
E era assim que me perdia!
Quando a quimera consumiu-se,
despertei sem a sua companhia.
A dor arrebatou a energia.
Agora a vejo fixar
e definhar, essa deliciosa quimera!
Quem antes soubera
e não me impedira de despertar?!
Quando era idílica a utopia
eu sonhava, mas vivia…
embriagava o ser com o desejar,
inebriava a ausência real que sentia!
O ácido deleite não saciava o ser sedento…
O celeste veneno corrompe a alma, antes, sadia!

02 janeiro 2012

O coração da Ave liberta é mudo!

Capítulo IV – Metamorfose real!

A felicidade é uma realidade escassa, inacessível. Abandonar o abrigo infantil, calar o coração é, sempre, abdicar da ilusão de vir a ver perfeito e feliz. Na infância é fácil acreditar que teremos a capacidade de marcar o mundo, de o mudar, irremediavelmente. É enigmático como tudo é tão acessível! Somos, então, as aves mais corajosas, as primeiras com a vontade assertiva de construir e alterar o espaço! Abandonamos, porém, a gaiola linda e abaulada. Trocamos a luz coada pela janela aberta e deliciosa. Somos gananciosos e a criança selvagem com o coração que se exprime torna-se na ave sinistra e calada que sobrevive na caverna e no prado idílico, mas efémero. Não sei onde estou agora! Não sou a criança frenética, nunca o fui, não sou a ave monstruosa, apesar de ter semelhanças. Sou, penso, ainda o estado intermédio da metamorfose brutal da vida. O monstro em mim alimenta, agora, as vontades que, outrora, eram sustentadas pelo sorriso ingénuo. As minhas asas começam a ter mais força, mais vigor, mas não me sinto, ainda, capaz de abandonar a caverna onde me abriguei naquela noite de trovoada. Oh, a humanidade está a esgotar-se! O Homem é a criatura, por vezes, menos humana que existe. É nesta fase da mudança que a generosidade é separada da criatura. De um lado está o Homem carinhoso que tenta a salvação dos pequenos. De outro está a escuridão monstruosa que é sufocada pelos modos rígidos da sociedade. O ser que, brevemente, irá brotar da minha antiga alma é estranho! Uma criatura reprimida com vontades frustráveis. Sim, um ser maduro, pela primeira vez capaz, mas sem capacidade de almejar mais do que o medíocre nada! Contudo, alguns Homens peculiares nunca alcançam este estado. É, claramente, esta a minha esperança: que eu seja um desses tais singulares seres que criam a partir do coração que, apesar de não ser infantil, é afogueado e barrulhento. Parte dessas criaturas monstruosas que se odeiam e amam, que sobem para cair e não para alcançar o topo. Talvez, até, porção de alguma outra criatura que se apaixone pela pacificidade passional e irrequieta da minha alma. A mudança que a natureza opera em todas as pequenas aves falha diversas vezes. Surgem, então, os originais, os erros! O mundo é alterado pela metamorfose, também. O lugar simpático e fascinante torna-se negro e corrompido. Sim, o mundo está tão intensamente negro, porque hoje os monstros ganharam. Os generosos quiseram-os na liderança. Os ingénuos apoiaram. E os estranhos, à margem, sucumbiram e deixaram que a metamorfose agisse como uma noite sem lua. Contudo, existem suficientes vontades para mudar o prado, antes idílico. Não existem é vozes poderosas e capazes de arremessar estes selvagens corrompidos e frígidos. É urgente! Esqueçamos a sociedade, o estado da sociedade! A manhã já aí vem… esperem… a felicidade aguarda-nos, temos de caminhar na sua direção. Porque insistíeis em fugir? Porque a inspiração surge do carpir, do sofrer, do monstro e da escuridão. E a ave calada torna-se, também, surda, cada vez mais pessoal e só!

Inspirado na Vida
IP

27 dezembro 2011

Real, Insano e Faminto

A ilusão vestia a realidade
e tinha os pés fincados no desejo desesperado
de amar e deliciar o ser com a simplicidade
da paixão divina e do sentimento almejado.

Ah, que doces horas! Voava
o tempo, qual borboleta ágil, mas natural.
Oh, como fui feliz! Queria  e gritava
pela morte súbita impregnada da delicia brutal!

O coração nascia, séculos após a dormência.
O azul cristalizado desbotava-se no rosa urgente
que brotava do sonho e da sonolência.

O sol já se erguera e quebrara a demência.
O ser sonhador agora estava sedento da alegria ausente,
esperava de novo o transbordar feliz da sapiência.

24 dezembro 2011

O coração da Ave liberta é mudo!

Capítulo III – Mudanças!

A pacificidade daquele lugar era peculiar. Era, definitivamente, a minha alma, mas era tão calma que, dificilmente, poderia ser parte do meu ser. De um eu que sempre correu vida fora, exigindo mais destreza, mais perfeição. Não! Eu nunca seria tão serena, tão magnífica. Contudo, a alma era minha e o céu confirmava-o. Quem mais teria aquele azul a pintar as entranhas? Ninguém. A tonalidade era singular, como um céu noturno desbotado e derramado sobre um mar do pôr do sol. Como uma nascer do sol mais escuro, mas, igualmente, deslumbrante. Era a cor que sempre estivera nos meus olhos. Era a forma como eu via o mundo. Toda a dor e sofrimento confundidos pelas saudades dos segundos de alegria. Eu ouvia o levantar da vida. Ouvia as vozinhas das folhas, o abrir das flores, o bater do coração do mais pequeno animal. Era impressionante a forma como eu me sentia parte e expectadora do vale, narrador e narratário daquele drama. O dia nascera e, agora, ouvia sobretudo, uns pesados passos apressados similares aos meus usuais. Era o despertar da minha monstruosidade? Aproximava-se e eu não podia fugir. Abrandaram! O coração voltou ao compasso comum. Era, de novo, só eu, o vale e o pequeno sol que pintava o céu. Senti felicidade, quando uma borboleta  fitou os meus olhos e eu pude reconhecer que aqueles não era uns olhos animalescos, cheios de instintos brutais, eram, na verdade, uns olhos tão humanos como os meus. Então, percebi que esta não era, apenas, a minha alma, o meu vale, o meu destino, era o mundo real e o casulo de todas os seres que, como eu, haviam abandonado as pequenas gaiolas infantis e, corajosamente, enfrentado o sol abrasador. O céu era meu, sim, mas o manto de relva sempre tão regado pela gotículas primaveris era pertence de outro coração mudo que, assim, se expressava. A solidão, pela primeira vez, pareceu menor. Naquele dia, sabia que nunca poderia contar com nenhum outro habitante, mas, sobretudo, era conhecedora da companhia que rodeava a minha vontade de marcar o mundo. A marca, tinha decidido, seria sempre da forma que alterara o vale: pintaria a vida de cores singulares e estranhas. O mundo não seria uma erma cumeada, nunca mais, porque a minha essência transformaria todos os desertos em campos de cultivo e todas as montanhas em planícies apetecíveis.  O Inverno seria sempre guardado para aquecer as moradas etéreas mais frias. Eu seria a ave mais autêntica e capaz. Porém, o mundo não quis ser colorido com as cores que eu havia querido, porque a vontade nunca é realizável. Os desertos não quiseram ser produtivos e férteis, porque é na esterilidade que residem os mais sumarentos frutos. As montanhas não quiseram ser aplanadas, porque as paisagens cavernosas, como aquelas, merecem, sempre, a mais profunda admiração. Eu, ave já dorida e, cada vez mais, calada, pousei no ramos da árvore mais só e, aí, desabei, como nunca antes desabara. Nesta noite, a trovoada foi intensa e o céu estava horrendo e magistral. Eu fugi e refugiei-me na mais brutal cumeada, que tanto desejara mudar. Naquela noite aprendi que mudar o cenário é o maior erro exequível. O cenário está sempre correto, porque é inalterável, rígido e frígido. O Homem, contudo, é racional e irracional, emocional e frio, falador e calado, é ele próprio a horrível criatura que erra, consecutivamente. O Homem não deve, porém, ser alterado, porque é o mais singular ser. Então, que fazer com a vida? Seguir o próprio riacho que explora o terreno, que se adapta. Ouvir a arejem na folhagem que se molda de acordo com o que o cenário lhe dá. O Homem deve, sempre, se acomodar ao mundo. Contudo, nunca se deve romper a luta pela mudança. Estranho, na verdade, mas real! A oposição humana será sempre mantida no coração das aves lutadores e excêntricas, porque, para nós, não basta compreender o mundo. É, antes, necessário aperfeiçoa-lo. Somos os construtores ingénuos do amanhã. Somos, quem sabe, o futuro. O frágil equilíbrio não será por nós corrompido, nós apreciamos a sua estranheza. São eles, porém, os cómodos, que acabam por ser demasiado pesados e ostentosos para o delicado manto de relva regado pelas gotinhas primaveris. São eles que o esmagam e transformam a mariposa num dragão brutal e temível!

Inspirado na Vida
IP

07 dezembro 2011

Home-made Coroa do Advento

Eu sei que é um bocadinho tarde para dar essa sugestão, mas só agora me ocorreu que a criatividade natalícia poderia dar um bom post. Portanto, há alguns anos, surgiu a ideia, cá em casa, de construir uma coroa do advento com cedro e outros artifícios natalícios. Este ano fui eu quem decorou a coroa de cedro. Fazê-lo fez-me entrar mesmo no espírito do Natal e, por isso, recomendo seriamente, para além de que é mais barato construir uma em casa do que comprar, aliás, são raras as coroas que se encontram à venda. Para finalizar, a verdade, é que será única, personalizada e criativa, podendo ser, também, extravagante – para os mais ousados – ou simples – para os mais sóbrios; tudo o que precisa são: 3 velas roxas, 1 vela rosa e 1 vela maior, que se acenderá na noite e no dia de Natal.

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Outras ideias facilmente exequíveis:

04 dezembro 2011

Veneno, o querer!

O coração gelado criou asas vibrantes,
o sofrimento de ser quem sou amainou.
As farpas iminentes e extramente cortantes
por dois segundos fitaram aquele que me criou.

Mas o ser morto e cruel quis rir.
Tomou as asas nas palmas níveas e destrui
a pouca liberdade.Fez a alma carpir,
fez o sonho ruir. O monstro conseguiu!

A alegria que era dormente
engoliu o veneno que o criador impingia,
soçobrou e caiu, horrorosamente!

O fogo devorou as gotículas que restavam,
e levou consigo tudo o que a minha alma pedia.
Morri! Mas, não apenas hoje. Morri em todos os dias que me sobravam.

24 novembro 2011

Barulho

Os passos não pressionam
o soalho dos meus pensamentos,
apenas esmagam as gotas que os meus sentimentos colecionam,
impedindo os seus dolorosos crescimentos!

Estas líquidas partículas vis
apertam todo o meu ser na dor
e, sem outra opção, eu aceito o que não quis,
adotando, como meu, o pudico e oco ardor.

Do piano, só os martelos se ouvem
ronronando monstruosa e brutalmente,
apagando aquilo que outrora fora a minha mente.

O agudo e grave parecem distintos.
Contudo, simultaneamente, famintos
da pressão e da dor da minha estrela que nada sente!

03 setembro 2011

Um Soneto Que Fiz Antes De Acordar

Ontem, o céu disse-me que o mundo era um jogo,
que enevoava as índoles e mentia
sobre quem era e para onde ia,
que apenas deixava o fumo, como prova  do fogo.

São de cristal os corações dos heróis temidos,
revestidos de cobre e coragem, de armaduras e desejos.
São de ferro os corações dos sonhadores mais conhecidos,
despojados de resistência e felicidade, de esperança e de pejos.

Os primeiros caem facilmente na paixão.
O sonhador procura furiosamente a inspiração,
abandonando o seu próprio almejo, o seu próprio coração.

O segundo sacrifica a criatura pela obra-prima,
deixando ao primeiro a glória e a função de fingir ser
quem não é. O mundo satisfeito, finalmente, dá, então, o seu parecer.

Dedos cruzadosIP

01 setembro 2011

O coração da Ave liberta é mudo!

Capítulo II – As Asas Crescidas

No meu primeiro dia de Vida refugiei-me, fugi do Sol que então parecia ferro quente a trespassar os meus sonhos. No segundo dia, permaneci imóvel, dentro de um novo casulo, que já não era a minha abaulada gaiola, que coava o Sol e que o tornava apetecível, era agora apenas uma camada exterior rapidamente construída com o medo, que me tornava invisível e me impossibilitava de ver o mundo. Estava retida nesta situação extrema. Teria de sair por completo, porque, de outro modo, jamais cresceria o suficiente para enfrentar a realidade. No terceiro dia, pela madrugada, rompi, finalmente, comigo mesma e corri livremente pela primeira vez. As minhas asas ainda estavam tenras, mas já crescidas, já não era a criança que sonhava ingenuamente. Sabia que não subiria ao penhasco mais alto para depois dele saltar e voar o meu mais sonhado voo.
Não tive medo, quando vi o primeiro raio de Sol, bati as asas e voei na sua direção, queria ver se era tão quente e tão nocivo como me lembrava. A luz e o calor fortaleceram as pequenas penas que instintivamente batiam e derreteram qualquer susto que o meu coração mudo poderia ainda albergar.
Lenta e dolorosamente fui deixando a antiga morada, afastando-me da janelinha aberta que me convidara a sair e que agora me convidava a voltar, de forma cobarde e sensabor. Eu, porém, não voltei, não regressei ao parapeito da abertura, nem mesmo para, por um breve momento, fitar a gaiola que me protegera e que, provavelmente, hoje seria a casa de um outro coração. Afastei-me sem olhar para trás, porque não sabia se seria capaz de resistir à errada, mas doce, tentação.Quando já não via o meu pequeno primitivo casulo, pousei, uma vez que já me encontrava suficientemente fora do alcance dos seus encantos. Durante uns momentos observei a pequenina paisagem. Ao fundo ouvia um pequeno riacho, mas os corações que me rodeavam eram mudos, e então eu soube que tinha chegado ao Éden dos corações libertos e adultos, não necessariamente maduros.
Voei mais um pouco, rodeando todo o pátio iluminado pelo sol matinal. Fui conduzida pelo meu coração, eu ouvia-o.
Durante setenta e quatro dia mantive-me aí, neste delicioso prado, e eis que ao septuagésimo quinto dia, parti! Era já madrugada precoce, a lua estava a desvanecer-se no azul que crescia, as minhas asas estavam fortes e capazes. Quando o Sol nasceu, já estava longe e sozinha, outra vez. O meu casulo era, agora, o mundo, a realidade, e sentia-me capaz de o conquistar com as minhas pequenas mas ginasticadas asas.
Quando o sol começava a murchar, já eu havia chegado ao meu destino. Estava mais uma vez na janela aberta que me libertara, olhava incessantemente para a gaiola vazia e questionava-me sobre se mais alguém alguma vez a teria voltada a habitar, a preencher. Para mim seria sempre a minha infância, a Minha gaiola abaulada, a minha proteção, o lugar onde a luz coada me iluminava o rosto, seria sempre o lugar da voz ativa do meu coração.
Antes mesmo da Lua se afirmar, eu já partira.
Naquele voo as minhas asas eram tão infantis no bater, eram tão precoces. O meu coração era tão falador, tão aflito e tão apertado. Temia ter falhado, temia não ser nem um quinto daquilo que esperava de mim própria. Mas, então, cheguei a um sitio maravilhoso: a luz era radiosa, o céu era azul mar profundo, como uma noite adormecida de Verão, a relva era fresca, e haviam gotinhas de sereno espalhadas nos frágeis pés de leão. O prado cheirava a arte, um odor a tinta antiga e a pêlo de gato acabado de lavar, algo limpo, algo misterioso, algo mágico. A vida aí era solitariamente acompanhada, não havia mais nenhum outro coração, apenas o meu, que agora batia furiosamente. E foi, então que compreendi que tinha chegado à minha alma!


Inspirado na Vida,
IP


 

06 agosto 2011

O coração da Ave liberta é mudo

Quando era criança tentei subir ao topo do mundo com as mãos nuas e com os pés descalços, mas o mundo escorregava e eu teimava demais, acabando por cair de costas sobre a superfície espinhosa que forrava todo o sopé da montanha.
Percebemos  que subir é difícil, que cair magoa e que, por vezes, chegar ao topo é mesmo impossível. Percebemos que não somos capazes de qualquer coisa. Percebemos isto tudo não quando somos crianças, não quando tentamos ser adultos, mas quando já não o somos , quando já não tentamos crescer, quando estamos assustados com o próximo passo. Aí finalmente compreendemos que somos apenas Homens fracos e impotentes, vulneráveis às opiniões, atingíveis e mortais, a um passo da queda sem qualquer proteção.
Não, não dói cair em criança. O chão, apesar de espinhoso, parece-nos penas deitadas sobre o mar embaladas na doce batida do oceano. A queda é lenta e quando atingimos o sopé, a nossa imaginação transforma-o em almofadas frescas pela noitinha antes de serem tocadas por alguém. Porém, quando já não somos infantis, a vida assusta-nos, os nossos sonhos parecem relativos, ou pelo menos as possibilidades de os realizarmos. Sim, quando já somos meras crianças adultas camuflamo-nos sob a tenra idade que apesar de denunciar a fraca possibilidade de sermos pequenos, esconde qualquer chance de sermos mais do que somos, protegidos.
E é nessa altura que o salto nos é requerido, pedem-nos que abandonemos o nosso pequeno casulo, exigem que nos tornemos borboletas grandes e majestosas, sem medos, infantilidades ou receios, atiram-nos do abismo e olham à espera que voemos, porque se não o fizermos caímos simplesmente e nunca mais seremos capazes de subir até ao estado de vida.
A ave que esteve presa na gaiola e que desejava sair, desejava conhecer o mundo, tem então a tão almejada oportunidade e quando a tem o medo assola-a de tal forma que a pequena portinhola parece-lhe os portões grossos e intransponíveis do purgatório. A ave afasta-se da saída ou enfrenta-a, contudo qualquer que seja a sua decisão a sua vida nunca mais será a mesma. O coração da ave que foi liberta é mudo, porque já ninguém o quer ouvir, o quer perceber, mas o coração da ave que decidiu ser cobarde simplesmente mirrou, porque sem coragem não somos quase nada e os nossos corações simplesmente são pó, do mesmo pó do qual fomos feitos.
É necessário escapar da nossa própria emoção, fugir também da nossa racionalidade, já que no final nem a racionalidade nem a emoção nos vão resgatar, vão antes deixar-nos escolher livremente, sem passado, sem presente e sem futuro. Vão colocar-nos numa gaiola de estanho, abaulada e pendurada na trave do teto reto, de onde se avista a janela aberta e a cortina posta de lado deixando escapar a livre e bonita paisagem que se mostra mesmo diante dos nossos olhos. A pequena porta da prisão estará finalmente aberta, como a infância abre a porta para a idade adulta, e neste momento as asas serão fortes o suficiente. A ave tomará então a decisão e ao voar janela fora, em direção a todo o seu futuro, a todas as suas verdadeiras oportunidades, vendo pela primeira vez o sol sem ser coado pela proteção da gaiola, o seu coração será repentinamente mudo ao ouvidos do mundo, estando agora a Avezinha e cada um de nós completamente sozinhos no meio da vida e da destreza dos momentos que nos aguardam.
O coração da ave liberta é, agora, apenas um coração calado, cego e incapaz de denunciar a sua verdadeira infantilidade, porque por mais que cresçamos seremos sempre as mesmas crianças que  ingenuamente tentavam subir a montanha sem ajuda, com as mãos bem nuas e os pés tão alegremente descalços!

Inspirado na Vida
IP

01 agosto 2011

Jane Austen, definitivamente Génio!

Não é realmente a minha primeira experiência quanto a literatura Inglesa, muitos menos a primeira quanto a literatura do século XIX. Não é a primeira vez, mas continuo imensamente apaixonada por este século que cada vez me surpreende mais.

Trata-se agora de A Abadia de Northanger, ou na boa língua mãe Northanger Abey, um livro aparentemente sem sal, não mais diferente do que qualquer história que ainda que genial não foge ao registo de Austen. E, na verdade, mantêm-se o estilo mas a história é do mais fenomenal que existe!
Um livro leve e contagiante, que na realidade nos mantêm acordados até ao final!

 

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05 maio 2011

Lado a Lado…

Insóniade Bocage
Oh retrato da morte, oh Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!
Pois manda Amor que a ti somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que delirar me obriga.
E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!
Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.
Insóniade Isabel Patrício
Quando vens, acaba-se o sofrimento
infligido pela cruel claridade,
pelo sopro da idade.
Encontro descanso, finalmente!
Manda-me o “eu” vaguear
noite fora, gritando a dor
que estrangula o sabor
do ser que sou ao levantar.
E vós, oh criaturas superiores,
sonhos, pesadelos, sufocações,
enchem-me de poderosos temores,
que repentinamente me atacam o coração.
E,nesta insónia, felizes são os inferiores;
Livres de toda a escuridão!