É curioso observar os diversos estados de enfermidade de um crepúsculo. Com efeito, quando nada há mais que me toque, somente observo este horizonte meio nublado, meio incapaz de combater o cansaço.
Quando a cruel luta intrínseca se acalma e os anjos descansam, eu acordo, finalmente! Durante anos, todas as noites estivais eram os meus dias intermináveis, inconsumíveis e, terrivelmente, longos. Que horror tremendo representava a escuridão e o seu calor extremo, que teimava em acentuar a loucura noturna. Esses anos, porém, abandonaram o meu espírito e, talvez por procurar distração, talvez por esquecer o ócio, o dia derramou-se sobre a minha anomalia preferida: a insónia!
Agora, passada a fase mais negra, deleito-me com os restos mortais da vida: o seu esqueleto que perdura e me encaminha para a perdição. É estranho como crescer se encarrega do esquecimento… quando estamos tão prestes a abandonar a sanidade, doidos com as milhares decisões que se propõem, a vida esquece-nos!
Ontem, a noite parecia um leito divino e eu não duvidei que, se existem, os anjos repoisavam sobre aquele manto. Todavia, o mais notável momento não se tratou do céu noturno, morno e insonso. Antes, apreciei animicamente o por do sol, que me impressionou! Tais cores e tais expressões… Oh como bailava o querer naquele final! Reflexivo e romântico, o momento crepuscular cessou um dia sem interesse com um final triunfante!
06 agosto 2012
Quando os anjos se deitam…
02 janeiro 2012
O coração da Ave liberta é mudo!
Capítulo IV – Metamorfose real!
A felicidade é uma realidade escassa, inacessível. Abandonar o abrigo infantil, calar o coração é, sempre, abdicar da ilusão de vir a ver perfeito e feliz. Na infância é fácil acreditar que teremos a capacidade de marcar o mundo, de o mudar, irremediavelmente. É enigmático como tudo é tão acessível! Somos, então, as aves mais corajosas, as primeiras com a vontade assertiva de construir e alterar o espaço! Abandonamos, porém, a gaiola linda e abaulada. Trocamos a luz coada pela janela aberta e deliciosa. Somos gananciosos e a criança selvagem com o coração que se exprime torna-se na ave sinistra e calada que sobrevive na caverna e no prado idílico, mas efémero. Não sei onde estou agora! Não sou a criança frenética, nunca o fui, não sou a ave monstruosa, apesar de ter semelhanças. Sou, penso, ainda o estado intermédio da metamorfose brutal da vida. O monstro em mim alimenta, agora, as vontades que, outrora, eram sustentadas pelo sorriso ingénuo. As minhas asas começam a ter mais força, mais vigor, mas não me sinto, ainda, capaz de abandonar a caverna onde me abriguei naquela noite de trovoada. Oh, a humanidade está a esgotar-se! O Homem é a criatura, por vezes, menos humana que existe. É nesta fase da mudança que a generosidade é separada da criatura. De um lado está o Homem carinhoso que tenta a salvação dos pequenos. De outro está a escuridão monstruosa que é sufocada pelos modos rígidos da sociedade. O ser que, brevemente, irá brotar da minha antiga alma é estranho! Uma criatura reprimida com vontades frustráveis. Sim, um ser maduro, pela primeira vez capaz, mas sem capacidade de almejar mais do que o medíocre nada! Contudo, alguns Homens peculiares nunca alcançam este estado. É, claramente, esta a minha esperança: que eu seja um desses tais singulares seres que criam a partir do coração que, apesar de não ser infantil, é afogueado e barrulhento. Parte dessas criaturas monstruosas que se odeiam e amam, que sobem para cair e não para alcançar o topo. Talvez, até, porção de alguma outra criatura que se apaixone pela pacificidade passional e irrequieta da minha alma. A mudança que a natureza opera em todas as pequenas aves falha diversas vezes. Surgem, então, os originais, os erros! O mundo é alterado pela metamorfose, também. O lugar simpático e fascinante torna-se negro e corrompido. Sim, o mundo está tão intensamente negro, porque hoje os monstros ganharam. Os generosos quiseram-os na liderança. Os ingénuos apoiaram. E os estranhos, à margem, sucumbiram e deixaram que a metamorfose agisse como uma noite sem lua. Contudo, existem suficientes vontades para mudar o prado, antes idílico. Não existem é vozes poderosas e capazes de arremessar estes selvagens corrompidos e frígidos. É urgente! Esqueçamos a sociedade, o estado da sociedade! A manhã já aí vem… esperem… a felicidade aguarda-nos, temos de caminhar na sua direção. Porque insistíeis em fugir? Porque a inspiração surge do carpir, do sofrer, do monstro e da escuridão. E a ave calada torna-se, também, surda, cada vez mais pessoal e só!
Inspirado na Vida
IP
27 dezembro 2011
Real, Insano e Faminto
A ilusão vestia a realidade
e tinha os pés fincados no desejo desesperado
de amar e deliciar o ser com a simplicidade
da paixão divina e do sentimento almejado.
Ah, que doces horas! Voava
o tempo, qual borboleta ágil, mas natural.
Oh, como fui feliz! Queria e gritava
pela morte súbita impregnada da delicia brutal!
O coração nascia, séculos após a dormência.
O azul cristalizado desbotava-se no rosa urgente
que brotava do sonho e da sonolência.
O sol já se erguera e quebrara a demência.
O ser sonhador agora estava sedento da alegria ausente,
esperava de novo o transbordar feliz da sapiência.
04 dezembro 2011
Veneno, o querer!
O coração gelado criou asas vibrantes,
o sofrimento de ser quem sou amainou.
As farpas iminentes e extramente cortantes
por dois segundos fitaram aquele que me criou.
Mas o ser morto e cruel quis rir.
Tomou as asas nas palmas níveas e destrui
a pouca liberdade.Fez a alma carpir,
fez o sonho ruir. O monstro conseguiu!
A alegria que era dormente
engoliu o veneno que o criador impingia,
soçobrou e caiu, horrorosamente!
O fogo devorou as gotículas que restavam,
e levou consigo tudo o que a minha alma pedia.
Morri! Mas, não apenas hoje. Morri em todos os dias que me sobravam.
06 agosto 2011
Quando Chega o Principio
É difícil dizer qual o exato momento em que começamos a amar uma pessoa. Sim, difícil, já que depois de termos sido “apanhados” o passado pouco importa e, na verdade, o futuro é realmente aquilo que mais nos interessa, um futuro sorridente e feliz com este novo amor. Mas será o amor assim tão sorridente?
Nem sei quando comecei a ter ideias tão cínicas sobre os sentimentos como hoje tenho, bem penso que sei muito bem quando comecei, consigo adivinhar o dia, a hora e até a razão deste começo. Não, não foi com o fim da primeira paixoneta adolescente, foi com o fim do primeiro grande amor e da primeira grande oportunidade.
Porém, hoje este fim não me parece tão garantido como pareceu naquela noite. Hoje, o fim parece-me cada vez mais desbotado e, mais uma vez, o passado pouco me interessa, o futuro parece-me turvo, e o presente parece-me vermelho garrido, como a vontade que tenho de mais uma vez, ou pela última vez, provar do veneno que tanto amei.
No final, tudo se resume a isto, ser ou não ser, eis a questão.
Por mais que uma pessoa vos magoe, a ligação continua intacta, porque lá no fundo continuamos a sentir a vontade inquestionável de viver acima do humano, acima da realidade. Continuamos a forçar o que, tantas vezes, mais vale a pena deixar ir, mas e se «A» oportunidade for aquela?